Dia 02 de fevereiro por todo litoral brasileiro praias são banhadas de rosas, perfumes, barquinhos, presentes e infinitas cores e mergulhos. A motivação dos festejos é Iemanjá, orixá feminina, mãe das águas, Rainha do mar. Odo-ya, sua saudação, vira canto. E ela sereia, nas ondas, nos banhos vem receber as oferendas e retribuir os agrados.
Moro longe do mar. Mas, há anos um impulso certeiro me leva pra areia, pra brisa e os ventos desta que considero a festa mais bonita. Em cada edição um novo tesouro é revelado. Do Rio Vermelho (Salvador/BA) trago as lembranças da madrugada, das velas acesas, do pé no chão, daquela horinha sagrada, na hora grande, de silêncio e fé.
Tenho aqui o despertar destes encantos levinhos, do cheiro de dendê, e da família de fé, imensa que vira noite e dia, entre capela, fonte, atabaques e banhos. Foi no Rio Vermelho que aprendi a sereiar. Do feitio fantástico do balaio de flores até a comida que alimenta a família, nossa gente de fé e a banda (inteira !) do bairro.
Desde o Rio Vermelho meu barravento navega mar de farturas e solidariedade. Sempre guiado pela reverência ao legado dos povos de matriz africana, cuja resistência voraz e inspiradora permite que esta força se multiplique e seja reconhecida e celebrada aos sete mares. Para que nos oceanos onde a maré avessa prevaleça esta mesma força que nos banha.
Esta vivência nos festejos, nas casas (ou ilês) são compartilhados saberes seculares transmitido oralmente. Cultuar é experiência vivida, que fertiliza muitas culturas. São cultuados comumente inventores de objetos, utensílios, fórmulas… Da vivência nos terreiros aprendi a cultuar inventoras. Pois, cada terreiro é uma reinvenção de mundos. Nascem ali sabedorias, sentidos e emoções.
Aprendi que tesouro mesmo é nossa subjetividade e psique profundas. E são nestes mares que navegam nossas ancestrais e as nossas futuras, compartilhamos todas das mesmas águas. Penso que algumas mergulham mais fundo que outras. E quanto mais fundo mergulhamos, sentimos necessidade das cores, da soberania, do transcender, da coragem, do cuidado, da justiça, da beleza, da bondade e da diversidade.
A Bahia e seu legado inspiraram um belo livro sobre “Besouro do Manganga”, o mitológico capoeirista do recôncavo. No livro tem uma frase que não me sai da mente e coração: “mulher é mistério e mistério não convém contrariar”. A capoeira está para o corpo, assim como os orixás para alma. Alimentos em canto, toques e danças de sobrevivência, emponderamento, liberdade.
Inspirada nesta maré, busco convergir todas que sou. E flui o encontro da sacerdotisa com a feminista, sem entraves. Como Rio que corre pro mar. Como as praias que são oceanos buscando romper os limites, (em toadas, encantadoras) forçando e expandido a terra-areia. A prática feminista é culto de liberdade. Insistir em vida plena. E tornar-se senhora dos mares que escolho navegar e dona dos mistérios que trago.
Mas, mulher é tanto e tantas que não cabe em definição alguma. E acho uma delícia de metáfora pensar nossos mistérios, como os do mar e suas profundezas. O ser humano conhece pouco do próprio oceano… Iemanjá guarda suas águas profundas.
CORREIO DO BRASIL
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